Quinta-feira, Fevereiro 04, 2010

3 poemas

O Poeta



Acostumar-se a este ofício

Que não é melhor, nem pior

A nenhum outro

Mas que é o único em que te sentes

Igual a ti mesmo e teus semelhantes

Com todas tuas garras e dentes

E preocupar-se com mais nada



A poesia



A poesia é um longo e interminável diálogo entre poetas, no qual se entra como num rio caudaloso. Igual perigo de afogar-se nessa corrente.



Buenos Aires (*)


Não sei quando voltaremos, Buenos Aires

talvez nunca, talvez esta noite, talvez nunca

quem sabe?

Talvez esta cidade seja como todo o resto

criado pelo imprecavido intento humano

de reinventar-se.

Talvez não seja mais que isso, uma breve ilusão

rodeada de praças bem ou mal iluminadas

Um labirinto efêmero em que se perder

e ao qual sonhamos, constantemente, reingressar.

_________

(*)Fiquei com medo de ter roubado o poema Buenos Aires de Borges ou de alguma coisa que li sobre Borges. O fato é que a figura do labririnto ---e do labirinto dentro do labirinto, penso no cemitério da Recoleta--- é inseparável daquela cidade. Estou carregando na minha mochila o volume 1 das obras completas do homem, em que consta "Fervor de Buenos Aires", primeiro livro (e de poesia) dele. Tinha lido antes e não tinha gostado, agora depois de ter conhecido BUE passou a fazer outro sentido.

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Terça-feira, Janeiro 05, 2010

¡OvosNuevos¡OvosNuevos!

Meu Deus, faz tanto tempo faz que massacraram aquele velho-e-solitário-judeu, que ficou assim velho demais desejar feliz año nuevo(?)(?)...

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Sexta-feira, Janeiro 01, 2010

Torres 2010_Cadáver de leite

Ulisses, James Joyce. Uma revolta muda, impotente, diante da morte, o transcorrer inexorável do tempo, cheirando a putrefação, em que “um dia são muitas vidas”, percorre o livro. Como na passagem a seguir, que faz uma referência cruzada ao zoroastrismo (a tradução é minha):
"Um corpo é carne estragada. E queijo, o que é? Cadáver de leite. Li numa dessas Viagens à China que o chinês afirma que um homem branco cheira a cadáver. Muito melhor cremar. Os padres são mortalmente contra. (...) Camâra de gás. Ao pó voltarás. Ou enterre no mar. Onde fica essa torre do silêncio parse? Comido por pássaros. Terra, fogo, água." *Os elementos eram sagrados para os seguidores desse antigo culto (ainda existente no Irã, Iraque e Índia). Enterrar ou cremar significava corromper. Eles resolveram a situação depositando os corpos dos mortos no alto de torres, expostos ao sol, para serem consumidos pela ação do tempo, pássaros, etc.
A capa da edição da Penguin Books é a foto de uma dessas torres.

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Sexta-feira, Dezembro 11, 2009

"Escrever o menos possível"

Do blog:
John Haffenden escreveu uma biografia sobre o poeta William Empson, “Among the Mandarins”, Paperback Book, 720 páginas, em que conta a seguinte história sobre o poeta T. S. Eliot:



Minha memória mais marcante é de estar caminhando [ao lado de Eliot] na Kingsway depois de algum almoço, provavelmente por volta de 1930, momento em que me encontrando sozinho com o grande homem senti que era oportuno levantar uma questão prática que andava me causando certa angústia. “O senhor acha realmente necessário, Mr. Eliot”, disparei, “como o senhor disse no prefácio à antologia dos poemas de Pound, que um poeta escreva versos ao menos uma vez por semana?” Ele estava se preparando para atravessar a Russel Square, olhando para o tráfego nas duas direções, e estávamos nos esquivando dos carros quando sua lenta resposta começou. “Eu estava pensando em Proust quando escrevi aquela passagem”, começou a profunda e triste voz, e então houve uma pausa considerável. “Tomando a questão de modo geral, eu diria, no caso de muitos poetas, que a coisa mais importante que eles teriam a fazer… é escrever o menos possível.” A gravidade da última frase era tão pura que lhe conferia uma qualidade quase lírica. Um leitor pode pensar que se tratava de uma manifestação de desdém ou de uma simples brincadeira, mas eu ainda hoje acho que não era; e naquele tempo me pareceu uma resposta não apenas muito sensata mas também muito satisfatória. Tirou um grande peso da minha consciência.

Comentário meu:
Eu tendo a pensar assim como John Haffenden, também tirou um grande peso da minha consciência! TS Eliot é um dos meus preferidos.

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Terça-feira, Dezembro 01, 2009

Canto sem dó

Oh esse canto

que não é em mim mais caro

não (me) mascaro mais.

Ora essa tralha

que se quer tão rara

e mal raia o dia

escancaro e não trago no peito

aberto

o escarro, escravo, ex-cravo

sem dó, nem ré, nem sol

nem lá, nem cá, nem caio

de tão sem fundo

que não me afundo mais e trôpego

tropeço, quando bêbado do

teu seio esqueço ou reconheço?

o começo do fim...

a dois, a Deus, ao diabo

com isso e aquilo e

aquilo outro, já chega e ponto

e parto, a palavra em seta, basta, besta

ex-cripta, dita e o poeta que a assista

em seu silêncio solene e sólido e

solitário

sem dó, nem ré, nem sol,

nem lá, nem cá, nem o raio que o...

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Sexta-feira, Novembro 20, 2009

Três poemas


SÍSIFO FELIZ?




Coragem


Paciência


Retidão


Honestidade


Rolar a pedra




Caráter


Ânimo


Disposição


Boa vontade


Rolar a pedra




Energia


Bem estar


Empolgação


Humanidade


Rolar a pedra




Sísifo só tem este


ideal.








RIMA, RIMADOR!




Aprender com o alvo


a flecha


Com o fim


a festa


Com o rasgo


a brecha


Com o beijo


a testa


Com a viga


a mestra


O que me resta


nesta vida


nesta rima


tão canhestra.






O INSETO






Tem da natureza inseta


a atração


por luzes


pelo perfume das flores


e das bebidas.

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Quarta-feira, Novembro 04, 2009

POEMA DA MINHA VIDA INTEIRA



Aos vinte anos, quis ser Goethe.

Agora, ando com Drummond no meu colete.


(O itabirano é melhor,

pelo menos não perpetrou

nenhuma "Teoria das cores" ou

"Os sofrimentos do jovem Werther"!)


Mas sem nenhuma pretensão

de virar estátua e ter os óculos

constantemente roubados

no calçadão de Copacabana

ou em qualquer outro endereço.


Poeta? Já atendi por essa alcunha.

Fui poeta quando não quis sê-lo

E quando quis sê-lo, já não podia...


Hoje sou funcionário público, não concursado,

e rôo a unha.

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